26 de abril de 2008

Interior de hoje em dia ou A Peleja do Créu com o Forró!

"Isso é cagado e cuspido/paisagem do interior" - Jessier Quirino

(Para Alberto Oliveira, Anselmo Alves, Saulo Gomes e Xico Bezerra)

No lugar onde eu resido
Cadeado inda é tramela
Não é tão evoluído
Mas já se assiste novela
E também telejornal
Por lá se toma nescau
Mas bom é leite de vaca
Lá se come sanduíche
E se diz oxente e vixe
E se enfia o pé na jaca.

Zona é coisa do passado
Não se vê mais cabarés
O serviço hoje é prestado
Lá nos quartos dos motéis
Que ficam na rodovia
Se prestam para a orgia
E pro namoro em segredo
Quem não tem o "faz-me-rir"
Só resta se divertir
No matagal e lajedo.

Moleque lá faz mandado
Temendo o cuspe no chão
Mas celular é usado
E de última geração
Muitos costumes mudaram
Pra melhor ou pioraram
Mãe solteira hoje é normal
E ninguém se escandaliza
Com o que o povo realiza
No plano sexual.

E por lá tem parabólica
Que leva o mundo até nós
E tem a turma católica
Tal qual a nossos avós
Devota de Padim Ciço
Quem não gosta muito disso
É a Igreja Glacial
Que não engole romeiro
Mistura fé com dinheiro
E Jesus com capital.

Ouve-se a trova brejeira
Do mestre Chico Pedrosa
Mas se dança a noite inteira
Com a Gatinha Manhosa
Mastigo cravo e chiclete
E essa tal de internet
Pra mim não é novidade
Que espanto não lhe cause
Mas sempre vou na lanrause
Quando visito a cidade.

No natal o mercantil
Sufocou a cristandade
Mas inda há pastoril
Em uma ou outra cidade
Da mesma forma o reisado
Ou algum presépio armado
Lembrando que o Menino
É o motivo da festa
Isso é coisa que ainda resta
No natal do nordestino.

Crianças vão à escola
Menos no tempo de inverno
Pois até trator se atola
E pra passar é um inferno
Já para a agricultura
É uma beleza pura
De verde o campo se cobre
Plantio de rico se irriga
Mas a seca inda castiga
A roça do homem pobre.

Inda se tange boiada
Em um cavalo montado
Porém a moto é usada
Também pra cuidar do gado
Pro trampo botina calço
Pro lazer um "naique"
falso
Nos meus pés eu logo enfio
Se agarro uma gatinha
Já uso até camisinha
Pois na sorte eu não confio.

Vaqueiro veste gibão
Com roupa que vem da China
Padeiro fabrica o pão
Com trigo da Argentina
Interior não se isola
Escuta o som da viola
E o verso do cordelista
O forró de pé-de-bode
Mas também axé, pagode
E até fanque entra na lista.

Tem muita festa animada
Pelos herdeiros do Rei
Porém parte da moçada
Só quer o som
do djidjei (DJ)
Lampião inda é herói
Pois foi o nosso caubói
Embora rei dos bandidos
Hoje herói tem de montão
Nesses filmes do Japão
Ou dos Estados Unidos.

O tigrão e a lacraia
Do jeito que vêm se vão
Mas duvido alguém dar vaia
Pras músicas de Gonzagão
Pode até não se gostar
Mas se sabe respeitar
Reconhecer o valor
Que venham Jamil, Chiclete
A Cláudia Leite, a Ivete
Venha lá seja quem for.

Até Mulher Melancia
Vindo virada no créu
Mostrando a lapa da jia
Não derruba Maciel
Nem Petrúcio, nem Santana
E pá de gente bacana
Do forró de pé-de-serra
Que vá praquele lugar
A calcinha, o caviar
Que a gente vence essa guerra.

Recife, Abril/2008

23 de abril de 2008

19 de abril de 2008

7º Festival Nordestino de Poetas Populares

















Estátua do poeta Cego Aderaldo (Quixadá-CE) Foto: Zoraia Nunes

Após assistir na noite deste sábado, 19/04, dia do índio e do aniversário do poeta Manoel Bandeira, a apresentação dos participantes do 7º Fenopop - Festival Nordestino de Poetas Populares, no majestoso Teatro Santa Isabel, onde me embriaguei com generosas doses de poesia servidas por Zé Laurentino, Raudênio Lima, Diomedes Marianho, Marinho, Chico Pedrosa e a danadinha da Vassula, além do porre de improviso provocado pelo abstêmio Ivanildo Vilanova e pelo magistral Sebastião Dias, só consegui dormir depois que joguei pra fora os versos abaixo, que estavam avulsamente martelando no meu juízo e que talvez me dessem insônia ou ressaca se não fossem regurgitados.

La vão eles:

O mundo se empalidece
Com tanta notícia ruim
Tanta desgraça acontece
Porque a vida é assim?

Por mais que se faça prece
Pra Javé ou Elohim
A todo instante aparece
Novo herdeiro de Caim.

Chafurdando, a humanidade,
Na lama da iniqüidade
Se perde no desamor

Quando mais o tempo avança
Mais se vai a esperança
Que tenha fim toda dor.

*************************

Ser poeta... é ir bem mais além
Do domínio da métrica e da rima
Exprimir-se de um jeito que ninguém
Além desse poeta assim se exprima.

Enxergar de um modo nunca visto
Descrever de uma forma especial
Surpreendendo assim com o imprevisto
Sobre algo já batido e até banal.

É contar a mesma história milenar
Porém por um ângulo peculiar
Que nos faça dizer: - Eita poeta!

Eu não sei se um dia assim farei
Mas eu tento, eu tento e tentarei
Pois chegar perto disso é minha meta.

24 de fevereiro de 2008

Recomeçando...

Criei aqui este outro espaço para arranchar meus escritos a partir de agora. O que foi postado antes permanece lá no endereço anterior. Quem quiser ver as postagens antigas basta clicar aqui.

7 de fevereiro de 2008

Cordel em Folia- 26/01/08




"O verso sai do papel
porque já é fantasia
se junta ao frevo e ao povo
eis o Cordel em Folia
cordelizando a cidade
com muita garra e vontade
trazendo nova energia."

Momentos da prévia do Cordel em Folia, realizada em conjunto com a Troça da Besta Fubana, no Mercado da Boa Vista, em 26-01-08

6 de fevereiro de 2008

PROMESSAS E DESEJOS


Foto: Alexandre Severo (JC Imagem)

Agora que o frevo dá trégua
Voltarei aos projetos
(Meus e alheios)
Concluirei os cordéis inacabados
Darei atenção a quem me é mais chegado
Pedirei desculpas
Matarei saudades
Tentarei recompor o que sobrou da folia.

Daqui a alguns dias
Serei, de fato, mais um guerreiro do passo
Cuidarei da troça
Traçarei mil planos
E antes que se faça um ano...

Espero estar de novo
na mesma euforia
Dos dias recentes
Revendo e fazendo amigos
Achando o dia curto e querendo ficar
Vinte e quatro horas no ar
Tostando-me no Galo
Zanzando por Olinda
Entregando-me ao au(l)to-sacrifício de Ceroula
Procurando desesperadamente por Patuscos
Baquenambuco, Alafim e Flor da Lira
Fazendo ponto na Bodega de Veio
Tomando axé de fala e cerveja
Cantando forró no Tanajura
Dançando coco e ciranda em plena Prudente
Indo atrás dos Gigantes
Dando pinotes e fazendo tesouras
Cantarolando vezes infindas:
“- Olinda, quero cantar
a ti, esta canção...”
“morena tome cana
que a cerveja acabou
ô,ô,ô!”
“Ei, pessoal
Ei, moçada...”
“popopopopopopó
popopopopopopó
popopopopopopó
popopopopopopó”

-Recife, manhã de sol da quarta (06/02/08) -

SILÊNCIO DE CINZAS


Bonecos no Galo da Madrugada (02/02/08)-Foto de Sebastião Aquino

O dia amanheceu belo de sol
E um silêncio de cinzas anuncia
Que a vida recomeça
O estandarte já repousa em seu canto
A máscara colorida enfeita a parede
E a sala ainda repleta
De sinais da folia:
A sombrinha que sobreviveu aos acoites dos passos
A carteira vazia
O tênis carcomido e sujo
O protetor solar ou o que dele resta
Chapéus com resquícios de talco e confetes.

O corpo também guarda lembranças:
Bronze do sol do galo e de Olinda
Pés inchados dos périplos e paradas
Braços doloridos de Ceroula e Patuscos

N´alma, a melancolia de sempre
Talvez por ser tão efêmera a alegria
Ou pela frustração do que deixou ser feito.
Inda bem que perduram as prazerosas lembranças
Dos desejos satisfeitos
Dos inesperados encontros e outros nem tantos
E das sementes plantadas em plena frevura.

( Manha da quarta-feira, 06 de frevereiro de 2008)

7 de janeiro de 2008

Folias de Reis

Dia de Reis no Recife. Queima da lapinha encerrando o ciclo natalino e dando início oficioso aos festejos de Momo. A palha dos presépios pegando fogo e Olinda também. As pastoras cantam suas últimas jornadas e as orquestras tomam conta das ruas. Os batuqueiros, idem.

Pastoris, bumba-meu-boi, cavalo-marinho, marujada, calumbi, nau catarineta, reisados, guerreiros e folia-de-reis são algumas das expressões da cultura popular típicas dessa época, espalhadas por esse Brasil afora. Umas ainda ativas, outras sobrevivendo a muito custo, algumas já fazendo parte apenas das lembranças dos mais antigos. E foi pensando nesses folgazões, nos foliões em geral, que escrevi o poema a seguir.

Folias de Reis (inclusive Momo)

Senhores donos da casa
Dão licença de entrar
A bandeira e os foliões
Pra na sala vadiar
Santos reis do Oriente
Nós viemos aqui saudar
Pinga em nós, ô coisa boa
Porco no tacho, ô iaiá!
Isso é coisa do passado
Que não se pôde apagar
Nas lembranças da guria
Princesa de Japurá
Que debaixo da bandeira
Quer novamente passar
Mas os foliões se foram
- Ô mamãe, me leva lá.

- Princesa, faço um convite
E espero que o acates:
Venha pra minha folia
Ela está em toda parte
Por aqui não há bandeira
Porém existe estandarte
Pode passar sob ele
E com isso, iniciar-te
Nessa folia de Momo
E a ela entregar-te
Há pinga aqui também
Ajudando a fazer arte
Tira-gosto de caju
Que em rodelas se parte
Tem cheiro de amor no ar
E gente querendo amar-te

Tem fantasias diversas
E quando a folia finda
Inda ficam focos dela
Pelas ladeiras de Olinda.


(Recife, 07 de janeiro de 2008.)

9 de dezembro de 2007

Domingo na Praia

Mais um na linha do realismo urbano

I
À caminho da praia um quarentão serelepe
Segue mascarado de protetor solar

Feliz da vida levando a tiracolo
A jovem morena que se abre em riso
E sedução

II
A danadinha, ainda meio escondida
o diminuto short e na curta blusa
que traz estampado um caboclo de lança,
Ignora o tempo e os olhares
mostra pedacinho de língua entre os dentes
e segue com seu jeito moleque e tentador
falante e cheia de gestos.

III
Minutos depois
Na arena da praia
Nem short nem blusa ocultam as formas
A água do mar arrepiando-lhe a pele
Um oceano de vontades inunda os dois.

IV
Pena aquele arrastão
Aquela onda de pânico
Tirando o encanto do domingo
Para aquele quarentão serelepe
Que sentado na areia
Se pergunta ansioso:
- Cadê a morena?

Dez/2007

1 de dezembro de 2007

Antônio Falcão com Domingos Ferreira

Não é minha praia o verso livre. Surfo melhor nas ondas da tradição popular nordestina. Só que vez por outra chega dá uma veneta e arrisco a rabiscar uns versinhos avulsos, como estes que seguem abaixo:

PARTE 1- NOVE DA MANHÃ

Pelas persianas se vislumbra
Ali bem pertinho do sinal
O diário vendedor de frutas no seu posto
A aliciar os carros que transitam
Seduzindo com cores e sabores.

A vermelhança dos cajus no tabuleiro
Compõe com a amarelitude esverdeada das mangas

Um
tropiquadro agridoce deste prenúncio de dezembro.

Meninas de canga e chinelo de dedo
Desfilam fagueiras em busca do Atlântico
Para realçar a morenitude tão nossa que atiça
Seduzindo com cores e amores.

PARTE 2 – NOVE DA NOITE

Meninas de todos os sexos
Economizam nas roupas
Exibem curvas e batons
E se postam vendedoras si no mesmo sinal da manhã

Atentas aos carros que transitam
E já não mangas nem cajus
Mas noturna mercadoria
Goiabas e maçãs
Do pomar das fantasias.

14 de novembro de 2007

Vazio


Quase um mês sem postar nada e continuo sem assunto, embora tema não me falte. Falta apenas disposição para escrever.

Fica o registro desta fase estéril e essa caricatura aí que fizeram de mim durante a Bienal do Livro

21 de outubro de 2007

Eu na Bienal


Último dia da Bienal. Eu (à esquerda) metido no meio das feras Luiz Berto, Joselito Nunes e o poeta Dedé Monteiro.


Platéia ouvindo os causos e os versos naquela tarde de domingo da Bienal (14/10/07).

Unicordel na Bienal


A Unicordel marcou presença na VI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, com um estande aconchegante e animado. Vez em quanto tinha recital relâmpago, rolou exibição de documentários e não faltou folheto para saciar a sede dos interessados pelo cordel que é produzido hoje no Recife e adjacências.

Somos gratos à Cia de Eventos (Rogério Robalinho) e Homero Fonseca, por terem viabilizado nossa participação. Assim como a Cadeiras e Complementos, pelo apoio cultural.


Recebeu visitas importantes, como poetas de outros estados a exemplo do Antônio Francisco, Izais Gomes e Neuza Santos (RN), os irmãos Arievaldo e Klevisson Viana (Ceará), Dila, Herlon e a turma de Caruaru, Maviael Melo (BA), além de artistas como Roanldo Aboiador, Irah Caldeira e Maciel Melo.

Na foto abaixo, o cordelista cearense Klevisson Viana declamando em frente ao nosso estande:

28 de setembro de 2007

A avó que deu a luz aos filhos de sua filha

A ciência evoluiu
Neste campo da Genética
Ás vezes até ultrapassa
As limitações da ética
Com feitos que não convencem
Aquela mente mais cética.

A ciência normalmente
Diz que traz a solução
Mas esquece de dizer
Que junto com ela então
Vêm efeitos adversos
Que mexe com o cidadão.

Há pouco se deu um fato
Que pelo mundo correu
A mãe que gerou os filhos
Da filha, pois lhes cedeu
A barriga pra gerá-los
E um par de gêmeos nasceu.

Parabéns para a Ciência
Que é capaz de tal feito
Dando esperança às mulheres
Que acalentam no peito
A vontade de ser mãe
Mas antes não tinha jeito.

Mas me diga como ficam
Esses meninos, coitados
Que são filhos de avó
Já que nelas são gerados
E assim irmãos da mãe
Do próprio pai são cunhados.

Um do outro irmão e tio
E dos tios irmãos serão
Já dos primos serão tios
Está feita a confusão
Acho que de um psicólogo
Ao crescer precisarão.

Mas avó ser mãe de neto
Já não é tão novidade
É coisa do tempo antigo
Quando esta sociedade
Era bem mais vigilante
No tocante à castidade.

Assim quando acontecia
De uma jovem solteira
Naquele tempo passado
Se perder na capoeira
E assim pegar um bucho
‘Tava feita a desgraceira.

Para evitar o escândalo
E a moça ficar falada
Sendo ela de família
Que fosse um pouco arranjada
Dava jeito de passar
Bem longe uma temporada.

Enquanto isso sua mãe
Inventava gravidez
E com barriga postiça
Ajustada mês a mês
Simulava até enjôos
Até quando fosse a vez.

Ia “parir” noutro canto
Pra ninguém desconfiar
E trazia o bebezinho
Pra como filho criar
A filha voltava casta
Ao aconchego lar.

E seguia como irmã
Do rebento angelical
A quem tinha grande estima
Pelo instinto maternal
Duas mães tinha o bebê
Carinho em dobro afinal.

A sete chaves guardava
Esta família o segredo
A verdade vir à tona
Era o mais dantesco medo
Mas vez por outra a tal farsa
Descobria-se logo cedo.

Hoje em dia as avós-mães
Dão-se de outras maneiras
São as crianças geradas
Nos ventres das mães solteiras
Criadas pelas avós
Estas são mães verdadeiras.

Esse tipo de vó-mãe
É pela consideração
Mas o novo tipo agora
Dá-se pela gestação
É o avanço da Ciência
No setor da criação.

Importante é ter uma mãe
Presente no dia-a-dia
Da criança que se forma
Mãe bem mais que companhia
Mãe que dá carinho e amor
Que ensina e serve de guia.

FIM

28-09-07

23 de setembro de 2007

E a praça foi dos poetas...



Eu na Praça Tomé de Souza (Salvador-BA): com minha companheira e o cordelista Antônio Barreto (alto, à esquerda), eu declamando (alto à direita, e baixo, à esquerda); com os cordelistas Antônio Barreto (vermelho) e Jotacê Freitas (azul). Foto: Aparecida França (19-set-07);

Fim de tarde de uma última quarta-feira de inverno. Enquanto a aparelhagem de som era instalada sob o toldo na praça, o sol começava a se esconder e aos poucos os poetas e atores-declamadores ia chegando. Douglas de Almeida, o organizador do recital, vez por outra anunciava: - Aproximem-se! Agora, dentro de alguns instantes, nosso recital vai começar. E sapecava ao microfone alguns “torpedos poéticos” despertando a atenção dos transeuntes, atraindo alguns deles que espontaneamente foram formando a tradicional roda.

A certa altura, começa a função. Os versos ecoam e o povo pára prestigiando os poetas na praça. Douglas de Almeida, Antônio Barreto, Jotacê Freitas, grupos de teatros e outros declamadores, inclusive, eu, anunciado bombasticamente como um cordelista recifense que tinha ido a Salvador especialmente para participar daquele recital. Coisa de baiano? Coisa de poeta? Nada disso! Forma carinhosa de dar-me as boas-vindas e valorizar a minha presença naquele ambiente, naquele momento. E tentando não fazer feio, tirei da cartola (e da cachola) o Nascimento de Trupizupe, de Bráulio Tavares, e criada a empatia com o público, saquei do bolso o meu Cordel Pra Bob Marley, do qual li algumas estrofes e sacramentei minha passagem pela Bahia de todos os versos.

O mais inusitado de tudo isso é que praticamente estava ali por acaso, se é que ele existe. É que eu (e minha companheira) chegara à capital baiana algumas horas antes, aproveitando alguns dias das férias para uma visita ao amigo Barreto, poeta e professor, a quem conheci há dois anos em Serra Talhada, no evento Tributo a Lampião, e que me deu a honra de recebê-lo em minha singela casa ano passado. Retribuindo-lhe a visita, sou recepcionado no aeroporto pelo amigo cordelista, deixo os teréns no seu agradável apartamento na Piedade, saímos para um rápido almoço (não confundir com fast food) e pronto, lá vamos nós para o primeiro encontro com a cultura soteropolitana. Foi o Festival de Poesia Salvador Cachoeira. E esse pernambucano enxerido, e metido na roda pelo seu anfitrião baiano, ainda ia teve uma brecha para declamar no recital que se deu na noite seguinte, no Teatro Gregório de Matos. Foi muito amostramento pra quem só pensava que iria visitar o Pelourinho, comer caruru e conhecer Itaparica, como um simples visitante.

Mas como diz o ditado nunca mais ouvido: mais vale um amigo na praça que dinheiro na Caixa. Foi graças a esse amigo que conheci uma Salvador muito diferente do que é exaustivamente vendido pra turista.

Saravá Antônio Barreto, com seus cordéis, suas gaitas e seu violão tão sertanejo!
Saravá Jotacê Freitas e sua recriação de Cuíca de Santo Amaro!
Saravá Antônio Paraíba, com sua Banca dos Trovadores estrategicamente instalada na praça do Mercado Modelo!
Saravá todos os Poetas da Praça, em especial Douglas Freitas e Geraldo Maia, com sua performance visceral e seu verso contundente.

22 de setembro de 2007


Antônio Paraíba e o cordel me Salvador!


Caixa-Pregos

19 de setembro de 2007

Uma viagem mais que poética na capital do agreste.


(Poeta Honório no Museu do Cordel, recepcionado por Olegário Filho)
Foto Cida França(Setembro/07)


Tarde desta terça de setembro. Volto ao país Caruaru onde estive pela última vez por ocasião da posse da primeira diretoria da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel-ABLC, coisa que se deu há dois anos, em maio/2005, um mês após a criação da União dos Cordelistas de Pernambuco-Unicordel. Nesse dia, por conta do trabalho, eu cheguei correndo e saí voando, não dando tempo de interagir com o povo do cordel que estava presente.
Fiquei me devendo esta durante todo esse tempo. Hoje deixei de ser inadimplente comigo de maneira muito especial, me pagando com juros, correção monetária e até CPMF. Aproveitando umas curtas férias, fiz a premeditada viagem que teve resultado bem melhor que o esperado, embora um dos objetivos não tenha sido alcançado: comprar um chapéu (de massa ou panamá). Mas isso é de somenos importância, tarefa boba e adiável.

Primeira missão era localizar e visitar o Museu do Cordel, fruto do idealismo de Lídio Cavalcanti e do saudoso cordelista Olegário Fernandes. Que ficava no Parque 18 de Maio eu já sabia, mas o desafio era como achá-lo entre aquela infinita quantidade de boxes e barracas vendendo “de tudo que há no mundo” e mais algumas coisinhas que Onildo Almeida acrescentaria hoje nesses tempos de China e Paraguai. Cruzei a ponte, dirigi-me logo para a área de artesanato e pedi informação ao primeiro vendedor que avistei. Batata! O atencioso senhor deu indicações precisas e, com poucos passos de volta em direção à estátua de pedra de Vitalino, e daí, descendo à direita no rumo da feira de queijo e driblando o labirinto de roupas e artigos importados, cheguei sem dificuldade ao ambiente modesto e mágico do museu tão carinhosamente zelado por Olegarinho (Olegário Filho). Vi folhetos antigos, comprei clássicos e lançamentos, travei uma prosa agradável e esclarecedora, tratei de negócios e até tirei foto (essas aí), não sei se como turista ou como pesquisador.

De lá, no rumo da Caroá (antiga fábrica de sisal e hoje espaço cultural e Museu do Barro), referência para localizar a casa do agora septuagenário Dila (melhor forma de identificá-lo diante dos infindos e intercambiáveis nomes a si próprio atribuídos), este grande mestre da xilogravura e ícone do cordel. Chegando lá, encontrei-o na calçada com sua esposa, pois acabara de se despedir de Hérlon Cavalcanti, autor do livro Xilogravuras do Mestre Dila - Uma visão poética do Nordeste, que será festivamente lançado neste domingo, dia 27-09, a partir das 14h30min no Museu do Barro de Caruaru, com muita poesia, música e canto. Apresentei-me e à minha companheira, e após os costumeiros cumprimentos, fomos convidados a subir os íngremes degraus que levam ao seu sótão-estúdio, e assim, adentrar no mundo fantástico do poeta dos cangaceiros imortais, fazendo-nos viajar com suas histórias e causos espetaculares.

Perguntou-me logo se eu conheci o Professor Roberto Benjamin, no que afirmei que sim, acrescentando ter mais contato com seu fiel escudeiro José Fernandes. A conversar correu solta sobre os imorredouros representantes da família Ferreira, sobre figuras da nossa História, como Lampião, Tenente Bezerra, Tenório Cavalcante, Padre Cícero, Severo Gomes, Cordeiro de Farias, Garrastasu Médici, João Figueiredo, Antônio Silvino, e tantos outros. Mostrou-me “sua” foto em trajes de couro e do “tempo” de andanças e combates, “confirmados” pela cicatriz de bala na perna. Comprei alguns folhetos seus para minha coleção e ganhei o dobro de presente. E olhe que o aniversariante era ele, que completara setenta anos de vida no dia anterior (17/09).

Mas da noite veio-nos o prenúncio da chegada e tive que anunciar nossa partida, não sem antes lhe dar um apertado abraço de parabéns pelo aniversário, desejando-lhe muita saúde e inspiração.

Pena ter que pegar a estrada de volta ao Recife naquela hora. Pena não ter chegado mais cedo e me deleitar com a prosa boa de figura humana tão rara e artista de tão prodigiosa criatividade. Despedi-me inúmeras vezes e entre uma despedida e outra, ainda ouvi sobre José Pacheco, José Soares e descobri que houve um repentista chamado José Honório, citado por Athayde. Mandou um abraço pro Doutor Roberto, para Marcelo Soares e para meus companheiros poetas da Unicordel. Finalmente consigo entrar no carro e dizer até a próxima com um aceno de mão, e assim, volto ao Recife com meu ânimo renovado e mais confiante ainda na força da poesia.


Salve Olegário Fernandes, Lídio Cavalcanti e Olegário Filho!
Salve o Museu do Cordel!
Salve Dila e sua legião de heterônimos!
Salve todos os poetas de todas as vertentes!
Salve os “doidos” que acreditam na força da imaginação e fazem com que a vida tenha mais graça e poesia.

16 de setembro de 2007

Quirinanças e Pedrosices (*)


Sou um matuto da capital. Pernambucano da gema, gerado no Paissandu e nascido na Boa Vista no início dos anos sessenta do século que passou. Menino recifense criado no subúrbio (hoje chamado periferia) da antiga e abrangente Casa Amarela em um tempo não tão remoto, mas que ainda dava pra tomar-se banho e lavar roupas no Rio do Brejo, pra meu padrinho Tiantônhe criar vacas e cuidar da venda, sortida de tudo quando era mercadoria, secos, molhados e mangaios.

Cresci num terreiro vasto onde nunca faltou galinha, pato ou ganso, guiné, um cachorro, por muito tempo um jacaré, e outros bichos em abundância, como muriçoca e maruim; eventualmente agregava-se à fauna doméstica peru, gato, papagaio, camaleão, sagüim; época dos brinquedos feitos por meu pai (balanço, burrica) e por meu avô (carrinho de madeira, cata-vento e outras engenhocas); das brincadeiras de toca, de pega, de se esconder, de mandraque; de bola só me dava bem com as de gude e também morria de raiva e de frustração porque nunca tive jeito pra empinar papagaio, pipa ou chalopa; fiz figuras moldando o barro ou enfiando palitos em buchas verdes transformando-as em animais os mais diversos; andei de cavalo-de-pau brincando de faroeste e fiz bolinha de sabão assoprando em canudo de talo de folha de mamoeiro. Tomei banho de biqueira e sapateei na chuva. Viajei de trem pra visitar Severino Gomes e lá comi doce de coco feito em fogão de lenha numa tapera de um velho sítio. Levei lapada de rabo de vaca, golpe só comparado a uma inesperada mãozada que um boneco gigante me deu lá no carnaval de Olinda.

Menino ainda, li folhetos pra meu avô paterno e ouvi dele e de meu pai histórias de assombração, causos do povo do interior, lá dos engenhos de Ipojuca, de personagens reais e fictícios; aprendi com cartilha de abc e tabuada; ouvi os versos malcriados ao som dos pandeiros de emboladores como Oliveira e Beija-flor (na pracinha do Diário e no Mercado de São José) e dos repentistas pelo rádio, ondas sonoras que me traziam também as vozes do Rei Gonzaga, da rainha Marinês, do mestre Jackson do Pandeiro, de Gordurinha, de Ari Lobo, e de tantos outros artistas não menos talentosos, como o grande Azulão, ainda vivo, bolindo e cantando divinamente, trazido de volta à cena pelas mãos do Herbert Lucena; ouvi de perto a dolente melodia da ciranda de Barbosa e de longe a batida dos bombos dos terreiros, negócio de xangozeiro, que me diziam não ser lá coisa muito católica; assustei-me com o boi do cavalo-marinho nas festas do Sítio da Trindade e desde então me encanto com os cabocolinhos e mais ainda com o frenético ritmo do frevo.

Organizei ovos nos ninhos das galinhas para que nenhum gorasse, pois minha mãe dizia que eu tinha mão boa para isso; subi em pé de pau e lá passava horas “viajando” no meu exílio de criança tímida e sonhadora, fã dos feitos de Santos Dumont, Rui Barbosa e dos heróis Felipe Camarão, Henrique Dias e Matias de Albuquerque; assei castanha, quebrando a casca em carvão com um porrete, fiz anel de caroço de macaíba ralando-o na calçada mais comprida que achava.

Do quintal, comi muita banana prata, manga espada, jaca dura, goiaba branca e vermelha, abacante, caju, e de vez em quando o cardápio era reforçado por ingá, coquinho, carambola, jabuticaba e catolé; além do trivial triunvirato charque, arroz e feijão (às vezes aditivado com bucho ou dendê), lambia os beiços com a gostosura dos caranguejos trazidos de Pontes de Carvalho por Inês, prima de meu pai, da mão-de-vaca, buchada de bode, sarapatel, cozido com pirão de cuscuz tudo preparado por Dona Otacília, minha mãe, que tem um antigo e belo livro de arte culinária, mas que nunca a vi dele fazer uso. Só nunca provei da sua afamada galinha à cabidela por conta do meu eterno protesto por ela ter passado a faca no pescoço de Maria da Pena, galinha que anos antes era aquela pintinha que me foi dada de presente por minha avó materna; desci ladeira desembestadamente em patinete de rolimã, dei cangapé na areia, amassei barro com o pé para fazer parede de taipa, extraí mel de cortiço, arranquei batata-doce e macaxeira, plantei coentro em leirão, tirei água de cacimba e a carreguei em galão; dormi em rede, cama patente e de campanha, um infante sonho de consumo um dia realizado.

Tive sarampo, bexiga, lombriga e moleira mole. Fui tratado com chá de sabugo de milho e outras mezinhas. A rezadeira Dona Maria me curou de um olhado. Tomei muito lambedô e Biotônico Fontoura. Subi a ladeira do Morro em louvor a Nossa Senhora da Conceição e religiosamente contrito ouvia a Ave Maria das seis horas na rádio Clube.

Esse converseiro mais cumprido que braguilha de macacão, mais demorado que lição de moral, mais remoído que conversa de prestamista era pra ser um introdutório à tentativa de explicar a razão desse meu encantamento com a arte dos que se nutrem das coisas do interior e nos alimentam com a brejeirice nordestina que teima e não se deixa massacrar pela modernidade bestializante. E de tanto gostar, acabei contaminado e querendo ser mais um cangaceiro nessa peleja de fazer valer a pernambucanidade, a nordestinidade.

Capitão Chico Pedrosa! Capitão Jessier Quirino! Não tenho bacamarte nem parabelo, não tenho papo-amarelo nem facão Collins para ser recrutado nesse bravo exército caririzeiro, brejeiro e sertanejo, mas acho que dessas armas não precisarei. Tenho no meu bornal aquelas munições que a vida me forneceu na infância às quais juntaram-se outras ao longo dessa minha jornada de escutador de versos e causos, e de matutador de versos e rimas. Fico aqui à mercê de vossas ordens, cordelirando quando dá na veneta e espalhando aos quatro cantos do mundo a força talentosa da obra magistral de artistas como vocês. Se não tenho tutano para o combate direto com as volantes, contento-me em ser um coiteiro ou um guerreiro como o pajeuzeiro Antônio de Juvita (**). O que importa é manter acesa a brasa da causa da cultura popular desta nação nordestina.

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(*) - Texto escrito em 16-09-07, após algumas doses caprichadas e duplas, por via oral e visual, de quirinanças e pedrosices nos dias 13/09 (Pátio de São Pedro) e 15/09 (Tarde no Mercado da Madalena e noite no Teatro Santa Isabel).
(**) - Personagem do poema Guerreiro do Pajeú, escrito por Chico Pedrosa, constante do livro Sertão Caboclo, lançado quinta-feira (13/09) pela Editora Bagaço (www.bagaco.com.br)

9 de setembro de 2007

A história do dia em que o amor veio fardado

O ato de fazer versos geralmente se manifesta a partir de um impulso criativo que leva o poeta a registrar com palavras aquilo que ele vê, pensa, sente e sonha. Uma idéia que lhe vem de veneta ou extraída a fórceps, seja como for, uma energia que nasce dentro do poeta e explode para o mundo através da palavra. Mas nem sempre é assim. Desde os tempos mais remotos poetas e outros artistas criam obras sob encomenda, produzem explicitamente para atender a demandas de terceiros, como qualquer artífice consciente da função utilitária do seu ofício.

No cordel, é comum a produção de folhetos de encomenda, normalmente para propaganda política, campanhas institucionais, educativas e publicitárias. Em sua maioria, tais poemas são construídos numa linguagem direta, objetiva, discorrendo desde o início sobre os aspectos mais relevantes do objeto que lhe serve de tema. Mas há poucos dias chegou às minhas mãos um cordel que foge deste padrão e valendo-se do recurso do merchandising, traz uma saborosa narrativa de uma paixão avassaladora como pano de fundo para a publicidade de uma empresa de segurança privada. Trata-se do sensacional folheto A HISTÓRIA DO DIA QUE O AMOR VEIO FARDADO, de autoria do jovem cordelista Mauro Machado, companheiro da União dos Cordelistas de Pernambuco-UNICORDEL.

Mauro conta a história de Simão, rapaz perdidamente apaixonado por Rosinha, jovem que tem uma atração arrebatadora por homens que usam farda, razão pela qual ignora os sentimentos do herói da história e se engraça de Ciço Cafuringa, o guarda da pracinha. Mas Simão não se dar por vencido, e parte para a reação. Julgando ser muito arriscado entrar pro Exército, decide ir pro Recife e ir trabalhar na Nordeste Segurança. Só a partir daí, da finalzinho da quarta página é que a propaganda mostra a cara, mas de uma forma muito solta e graciosa, diluída no enredo amoroso, na medida certa, deixando-se florescer no momento devido, apresentando-se como um recheio no meio desse romance caboclo. Eis alguns trechos desse cordel:
...
O alvo dessa paixão
Tinha a graça de Rosinha
Ela era de Simão
A sua antiga vizinha
Que no Recife morava
Mas pra Gravatá voltava
Porque em junho sempre vinha.
...
Foi quando chegou na frente
Outro homem pra dançar
Interrompeu o pedido
Mandou Simão se catar
Pegando a mão de Rosinha
Foi pro centro da pracinha
Pra com ela forrozar.

Era Ciço Cafuringa
Quem com Rosinha dançava
Era o guarda da pracinha
E bem fardado ele estava
Foi que descobriu Simão
Pra atingir seu coração
Que de farda ela gostava.

No outro dia já queria
Pro Exército entrar
E fardado de soldado
Rosinha iria gostar
Mas se tivesse uma guerra
O seu plano ia por terra
Ia longe guerrear.

Decidiu ir pro Recife
Ver um emprego fardado
Ele andou toda cidade
Foi de um lado ao outro lado
Com muita perseverança
Na Nordeste Segurança
Foi que teve seu achado.
...

Certamente ele seria
Que Cafuringa melhor
Afinal em Segurança
A Nordeste é a maior
E Rosa o namoraria
Pois não mais ela acharia
Que Simão era o pior.
...

Já de noite, na pracinha
Bem de longe ele avistou
Muito autoconfiante
Até ela caminhou
No seu ombro foi tocando
Então foi ela virando
E ele pra ela falou:

- Ó, bela flor pequenina
E que só nasce em botão
Perfumada e tão formosa
Como a lua no sertão
Nessa noite tão perfeita
A senhorita aceita
Dançar comigo, o Simão?

E viu da Nordeste a farda
E na hora se encantou
Nunca viu homem mais lindo
Foi o que Rosa pensou
E esse namoro esperado
Foi com um beijo selado
E ali mesmo começou.
...