(José Honório)
Admiródemaislungo
Chicocidapedrosamericofilosoul
Ivamarinhouçosempresempressa
Wilsonsfreirewassistoatônito
Silvasilvanalanguidamente
Naquintessênciadasquartas
Eeuviajonomeunicordelírio.
16 de maio de 2010
RECÍFERAS
TREJEITÓRIA
tuberiforme alicerce.
ecoam vivas demais.
O futuro hoje me acena
sintoniza-o minha antena.
E assim, sem rumo certo
eu sigo por onde quero
ir, ouço minhas vontades,
só que as vezes chego tarde,
mas sendo este o meu tempo
é o mesmo contentamento.
As frutas de Pernambuco
2 de abril de 2010
Bredo, quibebe, sangria e serra velho.
À mesa, o peixe, o feijão, o bredo, o quibebe. Tudo "de coco" como se diz por aqui. Também arroz, salada e peixe frito. Suco de limão e de uva. O primeiro espremido na hora, o segundo, industrializado, como industrializado foram os vinhos, um seco e outro suave, de mesa. Tomei dos dois, que não tenho preconceito, como tomaria também cerveja, cachaça ou outra bebida qualquer sem o menor remorso. Meu ritual é puramente gastronômico. Além do que gosto deste momentos pelo que eles trazem de peculiar, de singular, pela quebra da rotina, da mesmice.
Não houve sangria como na minha infância, feita com vinho (Sangue de Boi), água e açúcar. Era o ponche, o refresco, de todos. Homem, mulher e menino. Como era bom! Mas hoje, os tempos são outros e não se deve dar álcool à criança, foi o que me disseram. É, né? Então não está mais aqui quem falou! Mais uma tradição a ficar só na memória dos mais antigos e nos compêndios do folclore. Assim como quase não se malha mais o judas e nem mais se ouve falar em serrar velho, sórdido costume que, até algumas décadas atrás, na noite da quarta-feira da Semana Santa, tirava o sossego do povo de mais idade, principalmente dos mau humorados e criadores de caso. Esses eram as vítimas preferidas de grupos de galhofeiros, que, munidos de tábua e serrote, iam até a casa do "escolhido" para fazer barulho, anunciar-lhe a morte, lançar-lhe maus agouros, impropérios e ler seu "testamento". Como reação, podiam receber os mais hediondos palavrões, banho de mijo dormido, disparo de espingarda soca-soca, ou a mais indesejada das respostas: a indiferença e o silêncio.
Nunca vi velho algum sendo serrado - no meu tempo de menino já estava em desuso - mas uma vaga lembrança me deixa a impressão que naquele tempo eu tinha medo que um dia inventassem de serrar o meu avô. E quem tava doido!
Mudou a sociedade. Mudaram os costumes. Houve algum progresso na forma como se ver a velhice, embora ainda muito falte para que nossos idosos sejam tratados com toda a dignidade que lhe é devida. Quem hoje merece ser "serrado" é aquele que não respeita não somente o velho, mas os que lhes são diferentes nesse mosaico humano, construído nessa diversidade de gênero, idade, opção sexual, etnia, necessidades especiais, etc. Haja serrote!
Os tempos são outros. Uma dramatização dos últimos dias de Cristo em cada esquina. Algumas artesanais, outras com toda tecnologia. E mesmo o povo já sabendo o final, não deixa de assistir e se emocionar. E de achar graça de vez em quando, como nos contou meu sobrinho, Yank, que flagrou José "Cristo"Pimentel dançando o rebolation enquanto se preparava para a Ascensão. É que, nesta cena, em que o ator é elevado às alturas, Pimentel teve trabalho para encaixar o suporte que trás costas ao mecanismo que o suspende e o leva à apoteótica "subida aos céus". Tal embaraço, obrigou-o a se remexer de um jeito inusitado para tentar se encaixar, movimentação imperceptível ao grande público, mas que não deixou de ser vista pelos olhos curiosos do menino atento e crítico.
Esta foi a minha Sexta-Feira da Paixão. Mesa farta, família reunida, antigos contando história de serra velho, menino contando história de Cristo rebolando.
Amanhã haverá novo ritual por esse mundo afora. A farra do chocolate, que já aparece como tradição. Tradição imposta pelo comércio, sem passado próximo, sem histórias contada por nossos pais e avós, sem comunhão. Ainda bem que há quem dela tire proveito, além das(os) chocólatras e vendedores, como bem o fez minha amiga Inez Sodré, a mais pernambucana das cariocas que eu conheço, dançarina de forró e doida por um bolo de rolo, que, muito inspirada, escreveu este Desejo de Páscoa
Deixa eu pegar em você com mãos ávidas,
sentir a textura do que te embala...
Procurar com os dedos uma forma de desnudar-te,
para enfim ver-te assim...pronto prá mim.
Com essa cor morena,
com esse olhar derretido,
querendo como sempre brincar comigo.
Pedindo minha boca...querendo meus dentes...
Dou-te enfim um último olhar,
quase lânguido e sonhador...
Sinto que meu coração bate.....
E enfim.....
Tenho-te:
Ahhhhhhhhhhhhhhh Chocolate!!!!!!!!
30 de março de 2010
PSICORDÉLICO
27 de março de 2010
ACORDOU FELIZ
Passos e Passadas: QUEM NÃO PULA NESTA VIDA, PINOTA NA OUTRA...
Foto: Ericka Laís (2010)
Recife, 29 de março de 2010.
25 de março de 2010
Miolo de pote: Meu Batismo na Tanajura
21 de março de 2010
Passos e Passadas: CAMINHADA DE DOMINGO

Confesso que tenho dificuldade em incorporar alguma atividade física à minha rotina semanal. A exceção, até agora, têm sido as aulas de frevo nas tarde de sábado, no projeto Guerreiros do Passo, cujos integrantes , desde 2005, ocupam a Praça Tertuliano Feitosa, no bairro do Hipódromo, para ensinar, gratuitamente, os movimentos desta dança pernambucana, utilizando o método desenvolvido pelo mestre Nascimento do Passo, do qual a maioria foi aluno. É o frevo na praça o ano inteiro, com um pequeno recesso que vai do carnaval até a semana santa, quem ninguém é de ferro!
- Tá pensando que corrida é priquito? Corrida né priquito, não.
Após repetir algumas vezes, completou:
- Corrida é pau!Disse isso e disparou na carreira, ganhando o oco do mundo. Em segundos já estava lá perto do Teatro Santa Isabel, e eu segui na mesma maciota de antes.
Terceira cena: A organização da corrida, dando um toque regional ao evento, colocou duplas de caboclos de lança em alguns pontos estratégicos da passagem dos atletas. Mas as figuras não entraram bem no clima e mais pareciam estátuas que brincantes. O máximo que eu vi de um deles foi posar para uma foto com alguns turistas. Por isso entendi quando um dos corredores ao passar por um deles gritou provocativo:
É O XERÉM TRITURADO DA SAUDADE/ NO ANGU REQUENTADO DA ILUSÃO.
É o desejo querendo ser real
É vontade buscando ser de vera
É verão cortejando a primavera
É um amor que só dura um carnaval
É sereno, é chuvisco, é temporal
É namoro curtido no portão
É olhar que penetra o coração
E se esconde por trás de uma amizade
É O XERÉM TRITURADO DA SAUDADE
NO ANGU REQUENTADO DA ILUSÃO.
É a voz do querer dizendo vem
É o receio do nada e que diz: - para!
Esperança que arma uma coivara
Faz o fogo arder sob o moquém
É a viagem do sonho que não tem
Compromisso nenhum com a razão
É a força indomável da paixão
Que se instala com toda liberdade
É O XERÉM TRITURADO DA SAUDADE
NO ANGU REQUENTADO DA ILUSÃO.
Recife, 18 de março de 2010.
Honório.
19 de outubro de 2009
... Sábado passado (17-10) estive em mais uma capital nordestina: Aracaju-SE. Cheguei de madrugada e retornei no meio da tarde, tempo apenas suficiente para cumprir minha missão de palestrante, conhecer gente boa do meio cultural (principalmente da cena musical), fazer novos amigos e me deliciar com uma apetitosa moqueca mista, antecedida e acompanhada de alguns copos de Skol geladinha que só. Valeu, Thalles, pela oportunidade.
... Nesta quarta-feira, dia 21.10, um grupo de estudantes do município de Japurá-PR , sob o comando da Porfª Maria Costa, encenará o meu cordel "Sidrião e Maristela ou A Goiaba da Discórdia, dentro da programação do FERA COM CIÊNCIA 2009, evento que acontece de 19 a 23.10, na cidade de Cianorte e é realizado pela Secretaria de Educação do Estado, envolvendo alunos e professores de alunos de escolas de 11 municípios do noroeste paranaense, num público total de 1.250 participantes, ematividades de artes, música, dança, teatro, esportes, brinquedos, brincadeiras, ginásticas, lutas, jogos, cultura regional, artes visuais, história e memória, além de fóruns de estudo e discussões. Leia mais
... Cordel com toda força neste mês de outubro. Primeiro, mais uma vez marcou forte presença na Bienal do Livro de PE, onde inegavelmente o estande da Unicordel foi o mais visitado dentre os que ofereciam folhetos. Passada a bienal, chega a vez da Semana da Ciência e Tecnologia, onde a Unicordel terá intensa participação nas atividades que serão realizadas nos dias 20 e 21, no hall do Centro de Convenções da UFPE, sob o comando da Profª Cida Nogueira.
... Preciso equalizar melhor meus neurônios para não ficar nessa crise de esterilidade poética. Começo rabiscando uns versos, mas quase sempre acabo é centrando minha atenção a elaboração de projetos, relatórios e informes. Doideira isso. A burocracia detonando a arte. Gosto disso não!
16 de agosto de 2009
Semente que vira fruto
Manso, domado, contido
Às vezes só chega arisco
Sugerindo outro sentido
A mensagem se refaz
Perante a rima voraz
Deixa o poeta aturdido.
A poesia é a essência
Um estado puro e bruto
É por meio das palavras
Semente que vira fruto
Toma forma de poema
Dá solução ao problema
Assumindo outro atributo.
O metro não sendo algoz
Mas um recurso excelente
Constrói com rimas o ritmo
E estando este presente
Dá beleza e encantamento
Forte, fraco, rápido, lento
Conforme a voz que o invente.
E com palavras e seus sons
Molda-se divina massa
Que se entrega ao poeta
A qualquer hora e de graça
Amante pronta pro gozo
E ele sendo caprichoso
Com ela não se embaraça.
Se castiço ou desbocado
Se laudatório ou ferino
O poema faz seu rumo
Desenha o próprio destino
Nele havendo poesia
Peita toda hipocrisia
Vira oração, vira hino.
Ora vindo de veneta
Como o que se improvisa
Ora painel de azulejos
Justaposição precisa
Pedra assentada com calma
Onde argamassa é a alma
Que na arte se eterniza.
Recife, 16 de agosto de 2009.
9 de agosto de 2009
Versos para o Dia dos Pais
Já no retorno, passei em frente à Casa de Repouso São Francisco, onde vi, próximo ao portão, três velhinhos conversando, e próximo à entrada, um carro estacionando de onde saiu uma mulher com um pequeno bolo, que, de imediato, imaginei ser para um dos hóspedes estalecimento. Ato contínuo, veio-me mais uma maneira de explorar o mote que nos foi dado, e assim, sem muito esforço, consegui atender à demanda do Felipe e lhe enviei as seguintes estrofes:
GLOSA 1:
Foi grande a sua omissão
Da minha vida um ausente
Jamais me deu um presente
Nem mesmo me deu lição
Qual o seu nome? – Sei não!
Nunca me foi revelado
Porém se eu fosse informado
Onde ele está, ia atrás
RUIM NO DIA DOS PAIS
NÃO TER MEU PAPAI DE LADO.
GLOSA 2:
Por causa do meu estilo
De viver na correria
Achei que melhor faria
Mandar papai pro asilo
Aqui eu vivo tranqüilo
Ele lá é bem cuidado
Todo ano é visitado
E ganha mimos demais
NÃO PASSO UM DIA DOS PAIS
SEM TER PAPAI DO MEU LADO.
28 de julho de 2009
De Garanhuns a rios e Pontes
Paulo Moura declamando no palco Cuiltura Popular - FIG 2009 (Garanhuns-PE)
Cumprida a missão de levar a Unicordel ao Festival de Inverno de Garanhuns, onde estivemos com estande no Pavilhão de Artesanato, recital no palco Cultura Popular (Av. Santo Antônio) e participação no recital aberto da Casa da Palavra (Avenida Santa Rosa), consigo relaxar e mexer novamente com os versos.
Através do orkut, a pesquisadora Bethânia Pontes fez contato comigo (por sugestão da minha amiga Lina Fernandes-Rádio Folha) pedindo versos que tratassem de águas e/ou rios, para ilustrar um trabalho seu sobre o Rio Paratibe. De imediato, apresentar-lhe alguns cordéis que conheço sobre tais temas, escritos pelos amigos Altair Leal, Ismael Gaião e Isabel Lima, além de alguns versos que fiz para o Rio Capibaribe, apresentados no 24/11/08, lá no Capibar, no Dia do Rio. Achei pouco e acabei fazendo também algumas estrofes para o rio objeto de sua pesquisa. Ei-las:
Pirá ty pe ou Paratibe
São os nomes aplicados
Ao “rio das águas claras
E dos peixes prateados”
Expressões que do tupi
Vieram, conforme eu li
Em textos me apresentados.
Mas é dos tempos passados
Água assim tão cristalina
Porque a poluição
Com sua força ferina
Lhe golpeia tão feroz
Agride de forma atroz
Qual raio da silibrina.
É no Riacho da Mina
Que se dá sua nascente
Com o Riacho do Boi
Se encontra mais a frente
Vira então o Paratibe
Deixando Camaragibe
Segue seu curso indolente.
No entanto, infelizmente
O tal curso é um calvário
Vai se enchendo de dejetos
Da nascente ao estuário
Se poluído não fosse
Ao juntar-se com o Rio Doce
Seria extraordinário.
(26/07/09).Concluindo, para celebrar a conquista de uma nova amiga, escrevi mais uma estrofe brincando com o seu sobrenome:
Muito improvável existir
quem seja mais indicado
para falar sobre RIOS
desse jeito apaixonado
do que alugém que já tem PONTES
desde que foi batizado.
3 de julho de 2009
Unicordel na Fenearte 2009

Jenner Guimarães; presidente da Unicordel, José Honório; e as primeiras-
damas, Regina Terezinha e Aparecida França.
28 de junho de 2009
Poesia Popular no São João 2009.

Poeta Ismael Gaião declamando no Arraial do Cordel (Recife-PE)
Recife, Olinda, Caruaru e Arcoverde incluíram poetas na programação oficial. A Academia Caruaruense de Literatura de Cordel fez bonito no pólo Cultura do Repente. A Unicordel mandou ver com o Arraial do Cordel. O Quartas Literárias de Olinda levou pro coreto da Praça da Abolição (ou da Preguiça, como é conhecida) poetas da tradição e urbanos. Também no Recife, poetas declamaram nos principais pólos juninos: Sítio da Trindade, Pátio de São Pedro e Praça do Arsenal.
É a poesia popular se esparramando mundo afora, conquistando espaços e se afirmando por sua força, beleza e encantamento.
Isso é só o começo.
22 de março de 2009
Cordel: Um forasteiro no carnaval de Olinda

A convite de Rodrigo
Um primo muito legal
Viajei quase três horas
Com destino à capital
Para ir até Olinda
Conhecer seu carnaval.
No Sábado de Zé Pereira
(Lá se diz Sábado do Galo)
Cheguei bem cedo no TIP
E fiquei a esperá-lo
E andei tanto lhe esperando
Que no pé ganhei um calo.
Quando o primo apareceu
Já chegou agoniado
Dizendo: - vamos, se avexe
Que a gente está atrasado
O Galo está já saindo
- Eita folião danado!
E ele tinha razão
O galo não demorou
É que na pressa, meu primo
Num batente tropeçou
Bateu com a testa no chão
E nela um galo ganhou.
Nós seguimos de metrô
Para o centro da cidade
Os vagões foram se enchendo
De foliões de verdade
Para chegar lá no Galo
Era grande a ansiedade.
Tinha gente pra dedéu
Em tudo quanto é lugar
Tinha até dentro do rio
Você pode acreditar
Nas ruas, um imprensado
No céu, um sol de lascar.
Já perto das duas horas
O Galo fervia ainda
Então meu primo Rodrigo
Encontrou-se com Lucinda
Que chamou a gente para
Ir brincar lá em Olinda.
E do Galo pra Olinda
Seguimos num desadouro
Lucinda deixou o carro
Lá perto do Giradouro
A essa altura meu calo
Já tinha largado o couro.
Andamos quase uma légua
Para chegar na folia
E eu já de pernas bambas
Sem carga na bateria
Mas depois de um retetéu
Recobrei a energia.
Subi e desci ladeira
Sem tá pagando promessa
Muitas vezes não sabia
Se ía por essa ou essa
Mas seja qual fosse a escolha
Sempre tinha gente à beça.
Para cortar o caminho
Entre becos me joguei
Mas com o fedor de mijo
Até mal quase passei
Ô imundície da gota!
Por pouco não vomitei.
Segui o Boi da Macuca
Com Benedito no fole
A essas alturas eu
Já estava todo mole
Pois cada latinha era
Tomada de um só gole.
Quando passou Flor da Lira
Eu quase me desmantelo
Inventei de dar em cima
Da garota do flabelo
Mas seu noivo chegou junto
E eu quase fiquei banguelo.
Na Rua Treze de Maio
Não há quem faça uma ideia
Era tanto frango junto
Tal qual abelha em colmeia
Tinha mais frango do que
A Granja da Mauriceia.
E ainda nessa rua
Encontrei turma animada
Tinha quase dez mulheres
Cada qual mais arrumada
Vendo o harém, disse: “ô
Vida boa, aperriada!”
Ao menos uma eu agarro
Disse com convicação
Mas logo vi que ali
Não era para mim não
Pois descobri que as doidas
Eram tudo sapatão.
Às vezes pensava estar
Em Sodoma ou em Gomorra
Ao ver o “Segurucu”
Ou “Diz que Me Ama, Porra!”
Quem não agüentar rojão
Pra bem longe deles corra.
Corra também do Patusco
Se afaste do D´Breck
Se duvidar do que digo
Com os próprios olhos cheque
Fuja de lá se benzendo
Ou também vire moleque.
Porque a troça é Ceroula
Descobri naquele dia
Pois entrei no rugerruge
Vestido, mas na agonia
Eu saí só com a cueca
Mesmo assim quase a perdia.
Faltou chão e faltou fôlego
Cheguei até flutuar
Quando chegou no Amparo
Fiquei suspenso no ar
Juro que pensei que o mundo
Estava pra se acabar.
Lá na Bodega de Véio
Eu jantei pão com salame
Só pensando no cuscuz
Em macaxeira e inhame
Mas primo disse:- encha o bucho
Lamba o beiço e não reclame
Tudo isso foi fichinha
É verdade, meu amigo
Porque lá nos Quatro Cantos
Enfrentei maior perigo
É que o Tarado da Sé
Quase acabava comigo.
Lá ia eu todo ancho
Dentro da troça animada
Quando o boneco girou
E me deu uma mãozada
Que eu fiquei zonzo, zonzo
Com aquela chapuletada.
Anoiteceu e então
Pensei que teria fim
Esta cruel maratona
Mas Rodrigo disse assim:
Vamos lá pro Guadalupe
Pra saída do Alafim.
E depois do Alafim
Sonhava eu com a pernoite
Mas fomos pro Bonsucesso
Enfrentar um novo açoite
Na saída do boneco
O Homem da Meia Noite.
A Cidade Alta inteira
Num só dia eu conheci
E já nascendo o domingo
Alegrei-me quando eu vi
Rodrigo entregar os pontos
Na sede do Cariri.
Mais de cinco da manhã
Foi que em casa chegamos
Depois de tanta folia
Rodrigo e eu apagamos
Às onze horas, o primo
Acordou dizendo: - Vamos?
- Vamos pra onde, sujeito
Será que dei na mãe minha?
Disse ele: - pra Olinda
Nossa turma está todinha
Nos esperando na troça
Tanajura com Farinha.
É capaz de já estarem
No Mosteiro de São Bento
Respondi-lhe: - Pode ir
Outra dessa eu não agüento
Vou ficar aqui sozinho
Nas pernas passando ungüento.
Quando passou o cansaço
Pra meu lugar eu voltei
O resto do carnaval
Só descansando passei
Ouvindo “pa-pa-pa-pa...”
Por muitos dias fiquei.
E agora, tempos depois
Lembranças chegam na mente
Desse carnaval tão louco
Tão típico, tão diferente
Que por mim não vou perder
Mais nenhum daqui pra frente.
FIM
Fevereiro/2009
Frevo e bolero
Nos últimos dias vinha tentando exercitar a estrutura do decassílabo e uma temática mais engajada, porém o esforço tem sido em vão, ficando as estrofes incompletas, as idéias presas na mente e os versos com pés quebrados.
Neste sábado, numa atitude desesperada, armei um cenário que julguei favorável à inspiração: liguei o som, peguei uma latinha de cerveja, liguei o micro, mas... nada.
Vez por outra um verso saindo capenga, mas nada de proveito. Inconformado com esta letargia, acabei escrevendo um desabafo neste metapoema:
Nesta tarde me quero assim recluso
Só entregue ao meu copo e aos meus discos
Absorto teclando os meus rabiscos
Cada qual mais disperso e mais confuso
Minha mente embotada por desuso
Não comunga os versos como eu quero
Para frente e pra trás, num lerolero
Sem ter rumo, sem base, sem relevo
Como quem se esforça em dançar frevo
Com alguém que só quer dançar bolero.
15 de novembro de 2008
Rompendo o "silêncio"...

Eu já sabia que ia ser díficil manter uma frequência de postagem neste blog, mas não esperava que fosse ser tão relapso assim.
Parece que ainda vai ficar assim hoje, porque não está vindo idéia alguma pra comentar aqui.
Ah, apareceu! Cordel e mídia!
Este tema chegou agora ao lembrar que nesta semana fui procurado por quatro diferentes veículos informativos com interesse na poesia popular nordestina: 1º- O Programa Papo de Boteco, que exibirá neste sábado, dia 15/11, na TV Nova (Canal 22) uma entrevista comigo, Susana Morais e Vinícius Gregório; 2º- A Revista Lupa, produzida pelos alunos da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA); que me entrevistou por email; 3º - Por email também fui entrevistado para o jornal eletrônico da Associação dos Funcionários do BNB (AFBNB); 4º- A TV Viva buscou a minha intervenção para arregimentar uma tropa de cordelistas para gravar vinhetas para uma série de programas musicais a ser exibida em nivel nacional.
Talvez seja pressunção minha ou ingeunidade, mas penso que tais fatos não aconteciam com tamanha frequência e amplitude, representando assim, um novo momento, favorável e promissor, também ao cordel, como, de resto, vem acontecendo com outras expressões da cultura popular.
Uma nova geração está aí antenada e receptiva ao que de tradicional e atávico resiste ao rolo compressor das culturas de massa. Algo me diz que a minha geração foi apática neste sentido. O que vinha do povo pouco era mostrado, e quando assim era feito, tratado como exótico, "folclórico", coisa do passado, de museu, de gente analfabeta e ignorante. Nos meus anos de escola nunca ouvi falar de cordel ou de repentista. Nos livro didáticos nenhuma referências aos ícones da poesia popular (se bem que até hoje esse débito ainda existe. O que já se vê são algumas raras citações, registro de sua existência, mas nada que mostre a sua relevância como elemento da nossa formação cultural).
Mas o futuro é promissor. Acabo de tomar conhecimento que o Ministério da Educação (através do Programa Nacional de Biblioteca Escolar-PNBE) incluiu cinco cordéis entre as obras indicadas. Ei-los: 1-A Ambição de Macbeth (Arievaldo Viana); 2- A Megera Domada (Marco Haurelio); 3- Os Miseráveis (Klévisson Viana); 4- O Corcunda de Notre Dame (João Gomes de Sá); e 5- O Mundo do Cordel (Moreira de Acopiara).
Parabéns aos poetas contemplados! Vamos divulgar essa ação para que novos títulos sejam incluídos nas próximas edições.
31 de julho de 2008
Pra não passar batido!
Versos novos, quase nenhum. Acho que só uma setilha que fiz tirando onda com minha grande amiga e pareia, Susana Morais, cordelista de primeira e agora economiária. Dediquei-lhe estes irônicos versos, que brincadeira à parte, representam a alegria compartilhada por essa sua nova conquista, a convocação para a Caixa Econômica Federal. Ei-los:
Susana vai para a Caixa
Nossa alegria eu não nego
Para parabenizá-la
nestes meus versos me apego
Eu que pensava que ela
Só iria à caixa-prego.
(Versos "feitos nas coxas" e declamados durante a farra bebemorativa do seu novo emprego)


