24 de junho de 2007

MEU SÃO JOÃO COM CAROLINA

A juventude moderna
só quer saber de folia
acha pouco o carnaval
para a farra e para orgia
criou os fora de época
inspirando-se na Bahia.

Há Micaeiro, Micaru
Micarande, Carnatal
Micarina, Garanheta,
Recifolia e Fortal,
Micaroa, Micaju,
Micaré e o escambau.

Tá vendo, nenhuma dessas
mexe com minha emoção
não tem nenhuma importância
não cala no coração
do jeito que me emociona
as festas de São João.

Tá certo que tem São Pedro
e o Santo casamenteiro
(Santo Antônio), mais nenhum
se compara, companheiro
com São João do carneirinho
este sim, é mais festeiro.

As más línguas dizem que
é chegado a uma sesta
uma madorna, uma palha
não sei se a verdade é esta
mas dizem que ele dorme
até no dia de sua festa.

Bem que o povo sempre tenta
despertar o dorminhoco
solta grande foguetório
e haja estrondo e papoco
pra ver se ele acorda e vem
conosco brincar um pouco.

Mas nem bomba, nem girândola,
nem foguete, nem rojão,
buscapé, traque, pistola
peido-de-véia ou vulcão
são capazes de acordar
o santo da animação.

Nem por isso a gente deixa
de festejar o seu dia
num mutirão se prepara
tudo com muita alegria,
as bebidas, o dicomê,
e o ambiente da folia.


O meu São João de menino
era acender estrelinhas,
lágrimas, traques-de-sala,
chuva-de-prata, bombinhas,
assar milho num espeto
e brincar de adivinhas.

Tinha uns que praticavam
um ato muito insensato
que sempre achei que era errado
(eles achavam um barato):
amarrar uns fogos de estouro
em algum rabo de gato.


Quando tornei-me um rapaz
mudei pois de brincadeira
ia com meu pai pra mata
para arranjar a madeira
e cortava satisfeito
a lenha para a fogueira.

Depois fazia a latada
bem na frente do terreiro
limpava, batia o barro
pro bate-coxa maneiro
cobria então com capim
ou com palha de coqueiro.

Ainda ajudava mãe
ralar milho e ralar coco
porque dentro da cozinha
era mesmo coisa de louco
mas pra festa ser porreta
valia qualquer sufoco.

Então lá prás cinco horas
parava de trabalhar
do cacimbão eu tirava
água para me banhar
me trancava lá no quarto
e ia me ajeitar.

Vestia a roupa novinha
comprada lá na cidade
calçava até um sapato
que para bem da verdade
era sempre muito apertado
não me deixando à vontade.

Naquele tempo era doido
pra ter uma namorada
mas era muito acanhado
nunca enfrentei a parada
e reclamava da sorte
sem nunca ir à caçada.

Pai acendia a fogueira
meu tio soltava um balão
meus irmãos queimavam fogos
na ponta de um tição
mãe terminava as comidas
e vô tomava um quentão.

E pouco a pouco ia chegando
o povo da redondeza,
os compadres de meus pais,
Tio Dito, Tia Tereza
e o melhor, minhas primas
Das Dores, Neves e Andreza.

Com pouco mais Zé da Vagem
um dos grandes sanfoneiros
chegava trazendo o fole
juntamente com os parceiros
Tõe Zinebra do triângulo
do zabumba, João Medeiros.

Com o trio lá na latada
principiava a festança
o repertório do rei
(que não sairá da lembrança)
animavam os forrozeiros
ralando pança com pança.


Quem gosta dum rala-bucho
aproveita a ocasião
pra se esbaldar no forró
porque não falta opção:
quadrilha, xote, xaxado,
ciranda, coco e baião.


Logo a poeira subia
de tanto o povo dançar
era preciso vez em quando
então o salão molhar
sobre o reclame do povo
que não queria parar.


Mesmo com tanto alvoroço
eu não tinha muito agrado
eu tomada umas batidas
olhava meio de lado
mas não encontrava jeito
de me sentir animado.

Gostava do movimento
mas ficava só por fora
via o povo no forró
e me sentia um caipora
e pensava assim comigo:
inda vai chegar minha hora.

Mas uma vez, meu compadre
tive um São João diferente
foi um São João tão pai d’égua
que mexeu com minha mente
eu já não era mais o mesmo
daquele dia pra frente.

É que mesmo com vergonha
cismei de participar
duma quadrilha que Neves
inventou de preparar
e eu fiquei todo cabreiro
do convite recusar.

Na quadrilha foi meu par
Carolina, sua amiga
dessas meninas modernas
que sempre mostra a barriga
e os roliços das coxas
e pros faladores não liga.

Desde pequena morava
com uns tios na capital
mas seu pai soube umas coisas
que não achou muito legal
trouxe então ela de volta
pra sua terra natal.

Pois bem, no primeiro dia
que a gente foi ensaiar
vestiu um short bem curto
apertado de lascar
e um tal de bustiê
somente pra provocar.

E eu ali todo matuto
como quem não quer querendo
achando que a danada
nada em mim estava vendo
vestia-se assim desse jeito
mas não era se oferecendo.

E haja "xis", "grande roda"
"Olha a chuva", "balancê",
"Caminho da roça", "serrote",
"passeio de dama", "ganchê",
"bolo de noiva", "cobrinha",
"changê de dama", "voltê".

E quem disse que eu acertei
os passos naquele dia
passava os pés pelas mãos
foi a maior agonia
e Carolina mangando
dos erros que eu fazia.

Perguntou: por que você
não tá dançando direito?
Lhe respondi positivo
mesmo assim meio sem jeito:
- é que ocê com esses trajes
abala qualquer sujeito.

Ela riu toda marota
mas disse sem se alterar:
vou lhe dar mais uma chance
para você melhorar
se isso não acontecer
vou arranjar outro par.

Ouvindo isso, meu amigo
enchi de ar o pulmão
e disse a ela: tá certo
não irei errar mais não
Tá vendo que eu não queria
perder aquele avião!

Me concentrei direitinho
nas ordens do marcador
não troquei mais nenhum passo
parecia um professor
de dança, e Carolina disse:
Aí sim, eu dou valor.

Daquele dia em diante
eu só tive um pensamento
de chambregar com Carolina
imaginando esse momento
de tanto sonhar com ela
quase tive um passamento.

Até que chegou o dia
da grande festa esperada
a quadrilha estava pronta
devidamente ensaiada
as roupas de chita, belas
E a tropa toda animada.

As fogueiras já ardiam
clareando o meu Nordeste
pois na noite de São João
esta terra se reveste
de um brilho que se estampa
em todo cabra-da-peste.

Dançamos nossa quadrilha
tudo saiu na medida
Carolina estava bela
com linda roupa vestida
cheia de renda e babados
sobre a chita colorida.

A sanfona deu um tempo
então fomos convidados
para provar das delícias
dum cardápio variado:
muita canjica, pamonha,
milho cozido e assado.

Angu, xerém, manguzá,
pé-de-moleque, paçoca,
mais bolo souza leão,
e bolo de mandioca,
manuê, bolo de milho,
arroz-doce e tapioca.

O fole roncou de novo
e Carolina eu chamei
pro salão pra dançar xote
ela aceitou, eu vibrei
depois de umas 03 músicas
tomei coragem e lasquei:

Chamei pra ir lá pra fora
tomar um pouco de ar
saímos pois de mãos dadas
num tronco fomos sentar
um sentimento atrevido
mais alto pôs-se a falar.

Olhei dentro de seus olhos
pareciam dois tições
ardendo assim de desejos
de recolhidas paixões
então beijei-lhe de súbito
sob estouros de rojões.

Ela beijava e arfava
como um fole de oito baixos
eu cheirava seu cangote
fungando sob seus cachos
num remelexo que só
há entre as fêmeas e os machos.

Nosso forró teve fim
como tem fim a fogueira
tive outras Carolinas
por essa vida estradeira
mas nenhuma inda apagou
as lembranças da primeira.

FIM
Timbaúba-PE, Abril - 97

2 comentários:

Jéfte Sinistro disse...

www.liberdadeaprisionada.blogspot.com

Jéfte Sinistro disse...

ótimo verso!!
parabpens
vida longa À cultura pernambucana
vida longa ao cordel