30 de maio de 2010

Domingo na varanda



Debruço-me à varanda neste domingo preguiçoso. As frestas dos prédios que circundam o meu deixam-me ainda ver umas nesgas de morros e outras referências espaciais da minha história neste bairro. Outro espigão se projeta na terraplenagem do terreno à vista. Futuros apartamentos adquiridos a prazo, fiados no que revela a planta de papel, pois as plantas que lá haviam há dias foram derrubadas juntamente com a velha casa. Removidos galhos e destroços, vê-se apenas tralhas, ferragens, ferramentas e equipamentos diversos, prenúncio das obras da fundação.
Em breve não mais verei as campas do campo santo nem as copas da mata de Dois Irmãos. Nem mais terei contentamento de reconhecer ao longe a fachada do Albatroz, hoje antro atroz da Universal.
Transforma-se a paisagem e, junto com ela, morre a alma do lugar. Já se foram o cheiro bom do almoço escapando pela janela; aquele som de piano tocado sabe-se lá por quem, assim como os acordes do misterioso saxofone da minha infância; o susto do pedestre ante o inesperado latido de cachorro “brabo” ao portão, e nem há mais mangueiras carregadas de frutas a serem abatidas com mira certeira de pedras catadas ao chão.
Portões eletrônicos acionados à distância por porteiros fardados e quase autômatos. De cachorro, nada de latidos e sustos, mas poodles na coleira das senhoras ainda sujando o passeio ou silenciosos pitbuls nem sempre de focinheira, mas sempre mal encarados. Nada de zoada de criança brincando no terreiro, a menos que se esteja próximo a um colégio ou creche.
Sendo domingo, é possível ouvir a algazarra de uma farra regada à cerveja e churrasco à beira da piscina.
De vida pulsante, nesta rua, vejo apenas Djalma pra lá e pra cá na bicicleta entregando seus pastéis e o Baleia, com seus baldes lavando os carros de vizinhos que não conheço. E, vez por outra, a viatura do Samu socorrendo mais um acidentado na esquina, ou estilhaços de vidro de mais um carro arrombado às claras.
30/05/0010

16 de maio de 2010

RECÍFERAS

(José Honório)

Admiródemaislungo
Chicocidapedrosamericofilosoul
Ivamarinhouçosempresempressa
Wilsonsfreirewassistoatônito
Silvasilvanalanguidamente
Naquintessênciadasquartas
Eeuviajonomeunicordelírio.

TREJEITÓRIA

(José Honório)

A terra está para os pés
tuberiforme alicerce.

As vozes dos ancestrais
ecoam vivas demais.

O futuro hoje me acena
sintoniza-o minha antena.

E assim, sem rumo certo
eu sigo por onde quero

ir, ouço minhas vontades,
só que as vezes chego tarde,

mas sendo este o meu tempo
é o mesmo contentamento.

As frutas de Pernambuco

(João Cabral de Melo Neto)

Pernambuco, tão masculino,
que agrediu tudo, de menino,

é capaz das frutas mais fêmeas
e da femeeza mais sedenta.

São ninfomaníacas, quase,
no dissolver-se, no entregar-se,

sem nada guardar-se, de puta.
Mesmo nas ácidas, o açúcar,

é tão carnal, grosso, de corpo,
de corpo para o corpo, o coito,

que mais na cama que na mesa
seria cômodo querê-las.