2 de abril de 2010

Bredo, quibebe, sangria e serra velho.


À mesa, o peixe, o feijão, o bredo, o quibebe. Tudo "de coco" como se diz por aqui. Também arroz, salada e peixe frito. Suco de limão e de uva. O primeiro espremido na hora, o segundo, industrializado, como industrializado foram os vinhos, um seco e outro suave, de mesa. Tomei dos dois, que não tenho preconceito, como tomaria também cerveja, cachaça ou outra bebida qualquer sem o menor remorso. Meu ritual é puramente gastronômico. Além do que gosto deste momentos pelo que eles trazem de peculiar, de singular, pela quebra da rotina, da mesmice.

Não houve sangria como na minha infância, feita com vinho (Sangue de Boi), água e açúcar. Era o ponche, o refresco, de todos. Homem, mulher e menino. Como era bom! Mas hoje, os tempos são outros e não se deve dar álcool à criança, foi o que me disseram. É, né? Então não está mais aqui quem falou! Mais uma tradição a ficar só na memória dos mais antigos e nos compêndios do folclore. Assim como quase não se malha mais o judas e nem mais se ouve falar em serrar velho, sórdido costume que, até algumas décadas atrás, na noite da quarta-feira da Semana Santa, tirava o sossego do povo de mais idade, principalmente dos mau humorados e criadores de caso. Esses eram as vítimas preferidas de grupos de galhofeiros, que, munidos de tábua e serrote, iam até a casa do "escolhido" para fazer barulho, anunciar-lhe a morte, lançar-lhe maus agouros, impropérios e ler seu "testamento". Como reação, podiam receber os mais hediondos palavrões, banho de mijo dormido, disparo de espingarda soca-soca, ou a mais indesejada das respostas: a indiferença e o silêncio.

Nunca vi velho algum sendo serrado - no meu tempo de menino já estava em desuso - mas uma vaga lembrança me deixa a impressão que naquele tempo eu tinha medo que um dia inventassem de serrar o meu avô. E quem tava doido!

Mudou a sociedade. Mudaram os costumes. Houve algum progresso na forma como se ver a velhice, embora ainda muito falte para que nossos idosos sejam tratados com toda a dignidade que lhe é devida. Quem hoje merece ser "serrado" é aquele que não respeita não somente o velho, mas os que lhes são diferentes nesse mosaico humano, construído nessa diversidade de gênero, idade, opção sexual, etnia, necessidades especiais, etc. Haja serrote!

Os tempos são outros. Uma dramatização dos últimos dias de Cristo em cada esquina. Algumas artesanais, outras com toda tecnologia. E mesmo o povo já sabendo o final, não deixa de assistir e se emocionar. E de achar graça de vez em quando, como nos contou meu sobrinho, Yank, que flagrou José "Cristo"Pimentel dançando o rebolation enquanto se preparava para a Ascensão. É que, nesta cena, em que o ator é elevado às alturas, Pimentel teve trabalho para encaixar o suporte que trás costas ao mecanismo que o suspende e o leva à apoteótica "subida aos céus". Tal embaraço, obrigou-o a se remexer de um jeito inusitado para tentar se encaixar, movimentação imperceptível ao grande público, mas que não deixou de ser vista pelos olhos curiosos do menino atento e crítico.

Esta foi a minha Sexta-Feira da Paixão. Mesa farta, família reunida, antigos contando história de serra velho, menino contando história de Cristo rebolando.

Amanhã haverá novo ritual por esse mundo afora. A farra do chocolate, que já aparece como tradição. Tradição imposta pelo comércio, sem passado próximo, sem histórias contada por nossos pais e avós, sem comunhão. Ainda bem que há quem dela tire proveito, além das(os) chocólatras e vendedores, como bem o fez minha amiga Inez Sodré, a mais pernambucana das cariocas que eu conheço, dançarina de forró e doida por um bolo de rolo, que, muito inspirada, escreveu este Desejo de Páscoa

Deixa eu pegar em você com mãos ávidas,
sentir a textura do que te embala...
Procurar com os dedos uma forma de desnudar-te,
para enfim ver-te assim...pronto prá mim.
Com essa cor morena,
com esse olhar derretido,
querendo como sempre brincar comigo.
Pedindo minha boca...querendo meus dentes...
Dou-te enfim um último olhar,
quase lânguido e sonhador...
Sinto que meu coração bate.....
E enfim.....
Tenho-te:
Ahhhhhhhhhhhhhhh Chocolate!!!!!!!!

Um comentário:

Mylle disse...

Esse blog é pura cultura! rs
Essa história de "serra velho" eu desconhecia.
Mas a 'tradição imposta pelo comércio'...conheço muito bem e estou disposta a fazer com que ela perdure. Pois quando encontro aquele moreno de olhos derretidos...aaaaaah, não resisto!
rsrs
Cheiro, homi.