21 de março de 2010

Passos e Passadas: CAMINHADA DE DOMINGO


Foto copiada do site http://www.demetrioesculturas.com (autor ignorado)

Confesso que tenho dificuldade em incorporar alguma atividade física à minha rotina semanal. A exceção, até agora, têm sido as aulas de frevo nas tarde de sábado, no projeto Guerreiros do Passo, cujos integrantes , desde 2005, ocupam a Praça Tertuliano Feitosa, no bairro do Hipódromo, para ensinar, gratuitamente, os movimentos desta dança pernambucana, utilizando o método desenvolvido pelo mestre Nascimento do Passo, do qual a maioria foi aluno. É o frevo na praça o ano inteiro, com um pequeno recesso que vai do carnaval até a semana santa, quem ninguém é de ferro!

Enquanto elas não recomeçam, sigo buscando alternativas menos tediosas para o exercício regular deste corpo sedentário. A caminhada tem se mostrado a mais atraente das opções, desde que adotei a estratégia de escolher um cenário diferente a cada vez, só recorrendo à esteira como derradeiro recurso. Neste domingo, peguei o ônibus com a intenção de caminhar nas centenárias ruas do bairro do Recife, aproveitando a movimentação dos participantes da Corrida das Pontes. Devo esclarecer que, para fazer tal escolha, foi decisivo saber que na concentração dos corredores teria frevo com os passistas da Cia. de Dança Fênix, conforme informação precisa e preciosa da minha amiga Camylle. Mas fiquei só na vontade, porque, se teve frevo, ou eu cheguei tarde de mais ou foi por trás do enorme estrutura montada pela organização (passarelas, palco, área de apoio, cabines, etc).

Por conta do evento, o trânsito do centro do Recife estava caótico. Interditaram as ruas, mas não criaram roteiro alternativo, obrigando os veículos a ficarem esperando a passagem do último atleta. Assim, desci nas imediações da Faculdade de Direito e segui caminhando até o Marco Zero, contemplando o rio, a arquitetura neoclássica, as grafitagens de Derlon, e, o mais interessante, os personagens que surgem do acaso e dão alma às ruas da cidade.

Primeiro, ainda perto de casa, na frente da Delegacia de Casa Amarela, de um policial civil em prosa provavelmente com o delegado ou algum superior seu, que trazia o revólver na cintura, ouvi apenas um fragmento da conversa que ficou impresso na minha memória. Ignoro o assunto tratado, mas achei interessante quando escutei o agente dizer: “... a pessoa pode estar querendo contemplar a paisagem ou ter um pensamento elucubrativo...” Pensamento elucubrativo às oito e meia da manhã, no meio da rua, foi, no mínimo, hilário e um sinal de que o dia estava só começando.

Segunda cena: Na ponte Princesa Isabel eu caminhava seguindo o fluxo dos corredores. Um deles roubou-me a atenção pelo seu jeito espirituoso e gaiato. Um senhor, já sexagenário, que vez por outra gritava:
- Tá pensando que corrida é priquito? Corrida né priquito, não.

Após repetir algumas vezes, completou:

- Corrida é pau!Disse isso e disparou na carreira, ganhando o oco do mundo. Em segundos já estava lá perto do Teatro Santa Isabel, e eu segui na mesma maciota de antes.

Terceira cena: A organização da corrida, dando um toque regional ao evento, colocou duplas de caboclos de lança em alguns pontos estratégicos da passagem dos atletas. Mas as figuras não entraram bem no clima e mais pareciam estátuas que brincantes. O máximo que eu vi de um deles foi posar para uma foto com alguns turistas. Por isso entendi quando um dos corredores ao passar por um deles gritou provocativo:
- Balança o chocalho, caboco!
Mas até onde pude ver, o grito entrou por um ouvido e saiu pelo outro, e a maquinada do folgazão continuou silente.

Última cena: Já deixando o Recife Antigo, ouvi uma das corredoras perguntar à colega de prova o nome do poeta homenageado naquela estátua no meio do passeio da ponte Maurício de Nassau. Diante do silêncio da amiga, um pescador solícito se apressou em dizer que era do conhecido conde holandês que dava nome à ponte. Ato contínuo, sem muita convicção do que havia dito, buscou a confirmação do seu companheiro de pescaria, que confessou não saber de quem se tratava, mas foi bem incisivo dizendo que não era Nassau, pois este foi um príncipe. Sai de lá com dor de consciência por não ter revelado aos quatro personagens que se tratava de grande Augusto dos Anjos, um dos doze ícones da poesia pernambucana homenageados no projeto Circuito dos Poetas, executado pelo artista plástico Demétrio Albuquerque. Ainda bem que não fiz isso, porque não prestei atenção à escultura e nem tive o cuidado de ler a placa de identificação, e só, mais tarde, através do professor Google é que descobri que, na verdade, não se tratava do poeta do Eu, mas sim do recifense Joaquim Cardoso.


5 comentários:

MillynhaAaA♥ disse...

Uma pena não termos nos encontrado.Queria ver você no FERVO. Tesousa e tramela ía ser bóia..rsrs
Um cheiro.

Jornalismo disse...

Bom dia Honório. Estava sapeando sou Blog e gostaria de saber se poderia responder a algumas perguntas sobre Literatura de Cordel. Sou estudante de Jornalismo e escrevo p o jornal universitário, estou fazendo uma materia sobre este tema. Meu contato: gicag26@limao.com.br ou gicag26@hotmail.com
Desde já agradeço,
Gisele Lourenço

Gerusa Leal disse...

Deliciosa a crônica da caminhada. Para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, o pitoresco se apresenta a cada esquina.
abraço

Honório disse...

Millynha: Essas tesouras e tramelas continuam sendo lenda! Cheiro pra tu!

Gisele: Sempre estarei à disposição para conversar sobre cordel. Conte comigo.

Gerusa: Não sei se tenho, mas estou procurando exercitar. Abraços.

Sandra F. disse...

Através da narrativa do meu amigo Honório, participei também desse passeio. Cheguei a sentir até o calor do dia... Maravilhoso!!!

um abraço