27 de março de 2010

Passos e Passadas: QUEM NÃO PULA NESTA VIDA, PINOTA NA OUTRA...


Foto: Ericka Laís (2010)

Quem desavisadamente chega na esquina da Rua Oscar de Barros com a Avenida Norte, em Casa Amarela, populoso bairro da capital pernambucana, por certo se admira com o inusitado da inscrição que preenche quase toda a fachada daquela casa: Associação Grupo Cultural PAPA DEFUNTO. Difícil evitar o espanto ou o acesso de riso diante de uma funerária com tal nome tão bizarro e, ao mesmo tempo, tão apropriado.

Não foi este o meu caso, quando caminhava por lá na manhã de sábado, pois, de imediato, percebi que estava não somente defronte a uma criativa agência de serviços funerários, mas também diante da sede de uma tradicional troça carnavalesca, velha conhecida minha, que, sempre que se aproxima a meia-noite da quarta-feira de cinzas, passa pela rua onde eu moro com destino ao cemitério do bairro, tendo à frente um caixão com um "defunto" vivo dentro, e nesse seu cortejo nada fúnebre, puxado por trios elétricos, arrasta dezenas de foliões insaciáveis e mais resistentes que eu, a essas alturas, já morto, pelo cansaço das batalhas de frevos e sombrinhas.

Talvez seja esta uma das razões de ainda não ter me animado a sair de casa pra me juntar aos pândegos do Papa Defunto. Outra, deve ser o repertório dominante nos trios da troça, empestado de axés e suingueiras. Mas, como acabo de descobrir que já teve até a frevioca com a Orquestra de Mendes, bem capaz que no próximo carnaval eu vença a preguiça e caia na gandaia também. Mais ainda porque descobri que o inspirado Hino do Papa Defunto foi composto pelo companheiro Paulo Viola, que eu conheci nos encontros da UBE/PE-União Brasileira dos Escritores.

Esta troça fez-me lembrar de uma outra tradição do carnaval pernambucano, A Mulher da Sombrinha, que lá em Catende, cidade da zona da mata sul, anima os foliões na sexta-feira que antecede a semana precarnavalesca, concentrando-se no cemitério local e saindo em cortejo pelas ruas da cidade. À frente, uma boneca gigante, fazendo uma alusão à lendária figura feminina, que deu origem à troça, e, segundo os mais antigos, seduzia os trabalhadores da usina, fazendo-os segui-la até o campo santo, onde entrava e sumia misteriosamente por entre as catatumbas.

Como vemos, tanto na capital quanto no interior de Pernambuco, nem os que moram na cidade dos pés juntos ficam imunes à irreverência dos que gostam de brincar o carnaval.

Recife, 29 de março de 2010.

2 comentários:

Mylle disse...

Essa troça deve colocar muito defundo pra brincar o carnaval hein?? rsrs

Beeijo, homi.

Honório disse...

Mylle: Como diz o hino... essa troça faz levantar todo tipo de defunto... os que estão enterrados e até os que não estão.
Bjs.